1923: Invernos Violentos e Jornadas Infernais
Enquanto a maioria dos dramas de época tendem a sanitizar (ou mesmo esconder) os lados mais chocantes das épocas que representam, 1923 parece ir na direção contrária. A justaposição de romance e brutalidade presente na primeira temporada foi substituída por longas e dolorosas jornadas nas quais é a brutalidade que impera.
Na primeira metade da segunda temporada, mesmo os membros da família Dutton que estão na segurança do lar têm suas forças de vontade testadas, seja por vários tipos de ameaças externas ou por um impiedoso inverno.
Prime Video · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes
Com o casal formado por Spencer Dutton (Brandon Sklenar) e Alexandra Dutton (Julia Schlaepfer) separado contra sua vontade, não há muito espaço para romance nessa temporada (pelo menos, até o momento). Ao invés disso, cada um deles está percorrendo perigosos caminhos por terra e por mar. Enquanto Spencer precisa lidar com criminosos e policias tanto em alto mar quanto em terra firme, é Alexandra que passa pelos piores momentos mostrados até agora.
Uma vez que ela vem da aristocracia britânica, seu choque de realidade serve como um choque de realidade para o espectador. Longe das regras e dos luxos da alta sociedade, ela precisa lidar com condições que são comuns para a grande maioria da população. Ao invés de fofocas durante o chá das cinco, ela precisa se preocupar com assaltos, burocracias, machismo e violência sexual. Além disso, provavelmente pela primeira vez em sua vida, ela precisa trabalhar para poder comer e não passar fome.
A viagem de Alexandra chega a ficar difícil de assistir. Talvez o momento mais emblemático seja o vexatório e invasivo exame médico pelo qual ela passa na Ilha Ellis. Símbolo da imigração para os EUA, foi nessa ilha que milhões de imigrantes foram processados e autorizados a entrar no país. O que a trama de 1923 realça é que esse não era um processo muito amigável, especialmente para mulheres viajando sozinhas.
Além desses momentos e de várias cenas de violência sexual, a trama vai relativamente fundo na mentalidade racista e machista dos personagens que estão perseguindo Teonna Rainwater (Aminah Nieves) pelo deserto americano. Os tipos de racismo exibidos pelo agente federal Kent (Jamie McShane) e pelo Padre Renaud (Sebastian Roché) podem ser diferentes, mas convergem no fato de que ambos se consideram superiores aos nativos americanos.
No fim das contas, suas posições refletem os cenários e as ideias apresentados em produções como Extermine Todos os Brutos e Assassinos da Lua das Flores. Os dois personagens pretendem erradicar as populações nativas, seja fisicamente ou seja culturalmente.
Já em Montana, é um rigoroso inverno que dificulta a vida dos personagens. Jake Dutton (Harrison Ford) passa por maus momentos ao tentar trazer o vaqueiro Zane Davis (Brian Geraghty), que sofre com danos neurológicos, de volta para o rancho. Davis havia sido violentamente espancado e preso pela polícia pelo crime de estar casado com uma japonesa. Uma lei estadual antimiscigenação de 1909 (e que só seria revogada em 1953) proibia o casamento de brancos com negros, chineses e japoneses, apesar de não vetar o casamento com indígenas.
No rancho da família Dutton, é a jovem Elizabeth Strafford (Michelle Randolph) que está no limite de sua determinação. A rigidez do inverno e vários ataques de animais selvagens (que estão esfomeados ou contaminados com o vírus da raiva) a levam a questionar seu amor por Jack Dutton (Darren Mann). Se na primeira temporada ela insistiu em ficar no rancho, agora ela está mais do que pronta para voltar para os confortos da cidade grande.
A primeira metade da segunda temporada de 1923 também faz um ótimo trabalho ao estabelecer Donald Whitfield (Timothy Dalton) como um aterrorizante vilão. Não são seu sadismo e sua indiferença pela vida humana que são assustadores, mas sim a sua capacidade e sua disposição para monetizar os sonhos, as fraquezas e os desejos das pessoas em geral. Sempre disposto a oferecer qualquer coisa que alguém esteja disposto a comprar, ele é um “capitalista” no sentido mais negativo que esse termo pode ter.
Whitfield pode ser considerado um precursor dos principais inimigos da família Dutton na série Yellowstone. Nas temporadas finais, o principal antagonista de John Dutton (Kevin Costner) é o fundo de investimento Market Equities, cujos executivos queriam comprar o rancho para transformá-lo em um resort de férias para as elites. Um século antes, esse é exatamente o plano que Whitfield apresenta para seus potenciais investidores, o que poderia resultar no tipo de situação analisada na série The White Lotus.
Enquanto seu comparsa Banner Creighton (Jerome Flynn) abandona quaisquer escrúpulos para fugir da pobreza e tentar concretizar sua versão do sonho americano, Whitfield parece ser uma “máquina” de acumular dinheiro e poder. Para muitos, ele deve ser considerado um “gênio” ou um “visionário”, apesar de seus planos se revelarem nocivos e insustentáveis para o futuro da humanidade. Na realidade, limitado por instintos cruéis e por uma possível psicopatia, ele é muito mais uma pessoa gananciosa e obcecada do que uma pessoa realmente inteligente.
E assim, 1923 aborda uma ampla gama de assuntos em uma ampla variedade de subtramas. Mais que isso, a série mais uma vez captura parte da beleza e parte da brutalidade da trajetória humana no planeta Terra. Se inspirando na condição humana e em acontecimentos históricos, o criador e roteirista Taylor Sheridan costura dramas íntimos e pessoais que, de maneira épica, ecoam pelas vidas de inúmeras gerações de seres humanos.